A lenda dos descobridores

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Mar alto… mar bravio, cheio de fosforescências duradouras e clarões subitâneos. E, sobre ele, a noite infinita iraunando-se  tão tenebrosamente, como turbilhões de vapores que se elevassem de um oceano de asfalto em ignição.

Os navegantes – perdida a nau, perdido o sono, perdida a esperança – reuniram-se no toldo batido pelos ventos e lavado pelas ondas.

Aí, no silêncio das coisas mortas, cercados pela agitação profunda das coisas vivas, os navegantes elevaram os pensamentos ao céu azul e prometeram, pelos ossos de suas mães, que se a Senhora dos Remédios os salvasse, eles levantariam uma capela na primeira terra que avistassem.

A noite inteira, a nau andou a barlavento e a julavento, até que, pela manhã, no horizonte longínquo, apareceu um monte com uma palmeira no alto.

Os mareantes arribaram à praia, atravessaram um canal, subiram o monte e, de lá, seus olhos de náufragos dilataram-se pela amplidão do cenário.

Depois, embrenharam-se na mata vizinha e, ao voltar, fincaram os esteios e ergueram uma capela à Senhora dos Remédios.

Em seguida, foram à descoberta da terra e viram que ela era cheia de CANAIS coleantes e LAGOAS oscilantes.

Regressaram com a alma nova a aleluiar um canto novo de alegria e de esperança. Junto à capela, voltaram-se em direção ao poente e, num gesto de fé, abençoaram o nome do Senhor.

A ânfora da Noite, entornada pelo sol a fugir, foi derramado o óleo negro da treva. As estrelas, como ilhas áureas, foram aflorando na calma lagoa do firmamento…

Toda história de um povo principia pelo mito. Toda gênese se emoldura na lenda. Todo início se desenha no vago.

E foi por isso que abri o portal deste meu livro (CANAIS E LAGOAS) com a chave daquela narrativa lendária, que a tradição conservou, sobre os antigos desbravadores da Lagoa do Norte (Mundaú) e da Lagoa do Sul (Manguaba), encravadas na beleza territorial do Estado de Alagoas.

Categoria: Artigos, Literatura

Discussion2 Comments

  1. Dimas Marques disse:

    O professor Doutor do curso de História da Ufal, Osvaldo Maciel, lançou um livro com toda a coleção do jornal “A semana social”, onde Otavio Brandão publicou originalmente canais e lagoas, em 1917.

    • Henrique Méro disse:

      Obrigado pela dica. Há também uma edição do livro Canais e Lagoas editado pela EDUFAL. Tenho um exemplar. Abraços, Henrique Méro

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