Djavan: antes de tudo o poeta

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Esta noite pertence aos poetas.

Pertence a Solange Lages, pertence a Arriete Vilella, pertence a Diógenes Tenório, pertence a Vera Romariz e, certamente, pertenceria a Ledo Ivo, que há bem pouco se encantou.

Mas a verdade é que pertence muito mais a você, Djavan Caetano Viana.

E é por isso mesmo que não quero falar em Valentim da Rocha Pitta, herói penedense na guerra contra os holandeses, mas cuja memória foi apagada nas mentes alagoanas; nem de Graciliano Ramos, banido com a cabeça raspada e tudo o mais o que o degradasse; nem de Jorge de Lima, o cantor de Orfeu, afugentado pelo temor da vingança; nem de Sabino Romariz, morto na indigência e relegado ao exílio da desmemória; nem de Calabar, celebrado pelos batavos e deplorado pelos lusitanos.

Devo falar, isso sim, de Djavan, alagoano vivo e poeta, antes que letrista e cantor, a quem abençoa a arte de enrodilhar palavras e sons, arrancado das primeiras os sentidos que só a melodia acende.

Djavan que, quando menino, vadiou nos campos de peladas pela Maceió inteira, ou quase isso, varando horas com seus dribles e firulas que não eram para qualquer um, segundo testemunha Ângelo Francisco da Silva Bezerra, seu companheiro de estripulias, Ângelo que aqui está, bem ali, de corpo presente, para não me deixar mentir.

Djavan que, mal adolescido e confessadamente estimulado pelo carinho e pela inspiração da sua mãe, acalentou com sua música um mundo de paixões nascentes, estas que viriam ou não a vingar, conforme até eu mesmo e a minha Cleide poderíamos agora testemunhar, pois que lá estávamos, a ouvi-lo, nos embalos de tantos sábados à noite.

Djavan que, mais tarde, buscando o futuro e perseguindo outros rumos, deixou brotar, de uma vez por todas, a sua mágica inspiração, fazendo da sua voz música e palavra, palavra que na música se completa, música que na palavra se inteira.

E nisso depõe em favor da história, uma vez que, consoante bem adverte Octávio Paz, os poemas, na antiguidade, não eram só por só lidos e declamados, mas sim cantados e interpretados, o que decretava feliz simbiose entre som e palavra, pois que reunidos para só assim denunciarem sentimentos.

Não sei se vem de Deus, duvida Djavan, do céu ficar azul, mas sei que é dos olhos dela, ao sopro da paixão, que por vezes vem a luz que azuleja o dia.

(O amor e as fantasias que semeia).

Amanhã, um outro dia, consola-se Djavan, quando, já a lua se tendo ido e, apesar de eventual ventania, abraçaremos e beijaremos a nuvem que passa no ar.

(O amor e o alento da esperança).

E assim, quando o dia amanhecer e ainda que procuremos, na solidão e no mar alto da paixão, o amado ou a amada, possamos, com o pensamento nele ou nela, ter um bom lugar para ler um livro.

(O amor e a redescoberta de si mesmo).

Seja bem-vindo Djavan, seja mais do que bem-vindo poeta Djavan Caetano Viana, justo neste dia em que Alagoas comprova que não esquece, não afugenta, nem esconde os seus nem deles se esconde.

Seja bem-vindo Djavan, seja mais do que bem-vindo, neste dia que, nesta Academia Alagoana de Letras, é mais seu do que de quem quer que seja.

Tocarei seu nome para poder falar de amor.

(O mistério do encontro).

E que não me condenem, pois que toda razão perde o seu fim se um coração for o juiz.

(O mistério do sentimento que desconhece a razão).

Deixemos que evapore a noite, posto como, nublada de estrelas, ainda assim derramou a manhã.

(O mistério da vida renovada pelo amor).

Debussy, o compositor, inspirou-se nos poetas Baudelaire, Byron, Verlaine e Mallarmé.

Schoenberg, o compositor, inspirou-se nos poetas Byron e Stefan George.

Djavan, o compositor, inspira-se no poeta Djavan.

(Discurso proferido na solenidade de entrega da Comenda Ib Gatto Falcão ao compositor Djavan, que ocorreu na Academia Alagoana de Letras em  9 de maio de 2013)

Categoria: Artigos, Personalidades

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