Folclore político: novas histórias

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Mendes de Barros, ex-deputado, candidato do MDB ao Senado em 1970 e Richelieu da Oposição de Alagoas, organizou na Assembléia Legislativa um Círculo de Estudos Políticos com Teotônio Vilela, Marco Maciel, Divaldo Suruagy, Marcos Freire, Carlos Castelo Branco, Carlos Chagas e outros.

No dia em que Marco Maciel chegou a Maceió, Mendes de Barros estava doente. Guilherme Palmeira, candidato da Arena ao Governo e amigo dos dois, levou Marco para visitar Mendes. Tocam a campainha, o filho de Mendes, Antônio, vê Marco com seus quase dois metros de magreza e finura, corre até o quarto:

– Painho, o mapa do Chile está aí com o Guilherme.

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Romeu de Avelar, jornalista, escritor, candidatou-se a deputado. Um desastre. Na seção em que votou com a mulher, apareceu apenas um voto.

– Mas, Maria, nem você votou em mim?

– Querido, todo dia, no café da manhã, você me dizia que já estava eleito. Para não desperdiçar meu voto, votei no compadre Chiquinho.

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Mendonça Neto era repórter do Diário de Notícias do Rio. Foi entrevistar Gustavo Corção. Corção impôs:

– Só falo se eu mesmo fizer as perguntas. Eu pergunto e respondo.

– Mas assim o senhor tira meu ganha-pão. Eu vivo de fazer perguntas.

– Se o senhor quer comer, coma. Mas não às minhas custas.

E não deu a entrevista.

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Teotônio não era apenas o apóstolo da redemocratização. Era um aplicado discípulo do Cristo. Como Ele, gostava de falar por parábolas. No Clube dos Repórteres Políticos do Rio, perguntaram-lhe por que o governo e a Arena tinha tanto medo das eleições diretas. Ele sorriu e contou:

– “A vaca do compadre pobre apareceu no pasto do compadre rico. O compadre pobre pediu ao compadre rico uma corda para tirar a vaca de lá. O compadre rico desconversou:

– Agora, eu vou à missa.

– Mas, compadre, o que é que tem minha vaca com a sua missa?

– Compadre, quando a gente não quer, qualquer desculpa serve.”

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Oséas Cardoso, deputado, fez fama de valente. Tranquilo e educado como um cônego em férias, ninguém diria que fosse capaz de pegar em um canivete. No entanto, em suas mãos já repicaram metralhadoras. Durante anos tentaram riscá-lo do mapa político do Estado. À bala jamais conseguiram. Tiveram de usar da caneta, em 1964.

Foi fazer um comício em Palmeira dos Índios, terra de Graciliano Ramos e da família Mendes, inimiga de morte de Oséas. A cidade ficou esperando o comício para ver de que lado ia começar o tiroteio.

Quando subiu ao palanque, havia um silêncio de mandacaru. Todo mundo duro, espiando. Lá em cima, só ele. Ninguém queria jogar a vida por um microfone e alguns votos. Menos Sebastião Baiano, mulato discursador. Ficou indignado, subiu, pediu a palavra:

– Minha gente, é um absurdo que venha um homem ilustre a esta cidade e ninguém suba aqui para saudá-lo. Por isso, vim dizer ao doutor Oséas que esta é uma cidade civilizada e nós vamos ouvi-lo. E vocês precisam saber que o doutor Oséas tem, no nome, todas as virtudes de um grande cidadão: tem o O da honestidade, o S do civismo, o E da inteligência, o A da harmonia e de novo o S da civilização.

Naquela noite não houve bala em Palmeira dos Índios.

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Textos de Silvestre Góis Monteiro (nasceu em 30 de março de 1893, no município alagoano de São Luís do Quitunde, e faleceu em 13 de novembro de 1972. Foi Deputado Federal, Governador de Alagoas, Ministro do Tribunal de Contas e Senador).

Fonte: livro Folclore Político: 1950 histórias, de Sebastião Nery.

Categoria: Artigos, Literatura

Discussion2 Comments

  1. Henrique, muito boa a iniciativa de publicar essas histórias. Silvestre Péricles eu já tinha ouvido falar por conta das suas “excentricidades” políticas, mas foi uma surpresa para mim saber que ele deixou para a posteridade escritos sobre a história das terras caetés.
    Muito bom o resgate.
    Saúde, sabedoria e paz.

    • Henrique Méro disse:

      Obrigado, Virgílio. Quando li os textos, todos muito divertidos e interessantes, não tinha como deixar de colocá-los-los aqui, em Alagoanidades.

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